quinta-feira, 12 de abril de 2012

Proibir ou não, eis a não-questão - José Roberto Torero

Não adianta proibir uma torcida de assistir aos jogos. Pois basta que os mesmos sujeitos entrem com camisas brancas e pronto, a proibição está contornada. A questão é mais complicada, e tem ressalvas, confissões, críticas, soluções, avisos e enfins.

Na primeira versão deste texto, o título era “Proibir ou não, eis a questão”. E obviamente a proibição seria em relação às torcidas organizadas. Mas pensei, escrevi, repensei, reescrevi e cheguei a este novo título, pois acho que a proibição é uma falsa questão.

Não adianta proibir uma torcida de assistir aos jogos. Pois basta que os mesmos sujeitos entrem com camisas brancas e pronto, a proibição está contornada.

A questão é mais complicada, e tem ressalvas, confissões, críticas, soluções, avisos e enfins. Vamos às ressalvas:

Ressalvas:
Nunca fui de nenhuma torcida organizada, mas imagino que deve ser muito divertido você se juntar a outros torcedores e ver jogos do seu time. Dá a alegre sensação de pertencer a um grupo. Você canta, pula torce, tem eco nas alegrias e consolo nas derrotas.

E as organizadas não são organizações criminosas (o que não quer dizer que não haja criminosos por lá). Certa vez dei uma palestra na Gaviões (nenhuma outra torcida me convidou) e conheci vários dirigentes inteligentes e bem intencionados.

Também não se pode esquecer que a violência, principalmente na adolescência, é algo comum, de forma nenhuma exclusiva de torcedores de futebol. Basta ver as brigas nas escolas hoje em dia. Ou usar a memória e lembrar dos seus tempos de antanho. Eu, pelo menos, dei e levei alguns socos na adolescência.

A última ressalva é que não me parece certo proibir a associação de pessoas. Há um certo ar de ditadura em dizer que as pessoas não podem ficar juntas, seja para fazer política, cantar ou ver futebol.

Confissões:
No início da minha carreira de colunista esportivo fiz um texto chamado “Torcedores, uni-vos”, uma espécie de manifesto torcedorista, que colocava o torcedor organizado como um potencial fator de mudança no futebol.

Eu realmente acreditava nisso. Mas, catorze anos depois, já não tenho a mesma opinião.

Pouquíssimas vezes as organizadas trouxeram avanço ao futebol. Em muitos casos elas foram usadas pelas diretorias dos clubes, vendendo seu apoio por ingressos grátis, dinheiro para churrasco, etc... E muitas vezes seguiram líderes tolos, mais interessados na projeção individual do que no clube.

Também pensei que as torcidas organizadas poderiam transbordar da vida boleira e ganhar uma cara mais política. Imagine, por exemplo, o que uma associação de organizadas não poderia fazer?

Mas esse transbordamento não ocorreu. Só conseguiram fazer isso com eficiência com relação ao carnaval. E tem sido uma experiência lamentável, vide os fatos acontecidos na última apuração.

Aliás, uma das coisas mais tristes do carnaval paulista é ver os integrantes da Gaviões em silêncio durante o desfile das outras escolas de samba.

Críticas:
Além da violência contra torcedores de outros clubes, as organizadas também dificultam a vida dos torcedores do seu clube. Por conta do perigo iminente, pais pensam duas vezes antes de levar seus filhos ao campo. Não é apenas pela diminuição do número de lugares que os estádios têm médias de público menores do que antigamente. É também pela fuga do torcedor comum.

Mesmo que não haja briga, a torcida organizada é chata com o torcedor normal. Se você está sentado por perto, eles exigem que você torça como eles, que fique de pé como eles, que cante como eles. Esta ditadura da maioria não é nada agradável. Ela é burra, preconceituosa, fundamentalista.

As organizadas chegam ao cúmulo de oprimir e reprimir outras organizadas de seu próprio clube. Por exemplo, houve a tentativa de alguns torcedores do Santos de fazer uma torcida do tipo argentino, usando o mesmo tipo de faixas, músicas etc... Pois esta pequena torcida apanhou de uma grande torcida (também santista) só porque torcia de um jeito diferente. E, obviamente, os inchas santistas acabaram.

Soluções:
Prender um cara porque brigou me parece pouco inteligente. Ele só vai se tornar um sujeito ainda pior. Mas, por outro lado, há que se cumprir a lei. Hoje há 27 sujeitos proibidos de assistir a jogos no estado de São Paulo. Só que não há nenhum controle sobre eles.

Uma saída é fazer como na Inglaterra, onde os torcedores banidos do estádio têm que ficar na delegacia durante os jogos. E, se o cara não aparecer, aí sim, cadeia nele.

É claro que a polícia vai usar a desculpa das delegacias cheias, etc... Mas há tantos policiais destacados para os jogos que este argumento me parece absurdo. É claro que é interessante usar alguns destes policiais para afastar justamente os tipos mais perigosos.

A punição é necessária. Tanto a torcedores violentos como em presidentes de clubes ou de federações. Mas o Brasil ainda é o país da impunidade, seja de Ricardo Teixeira, seja do sujeito que matou o palmeirense na Inajar de Souza neste domingo.

Boa parte da solução é mesmo policial. Há que se vigiar os sujeitos, as redes sociais, e afastar os torcedores violentos. Mas não há um trabalho sistemático em relação a isso. Não há uma inteligência policial atuante. Não há escutas telefônicas e rastreamento das relações pessoais dos principais terroristas do futebol.

Outra solução, ainda que parcial, é deixar os clássicos com apenas uma torcida. Sempre fui contra isso, pois acho a segregação uma derrota da sociedade, do poder da convivência. Mas me rendo. Às vezes há que aceitar uma derrota para não sofrer outras maiores.

Aviso:
A batalha deste domingo foi uma vingança em relação à morte do corintiano Douglas Karim Silva, em agosto de 2011. Pois a morte de André Lezo também deve gerar vingança. Segundo apurou o jornal Lance!, a briga pode acontecer na via Dutra.

Creio que, em relação aos torcedores, há um sentimento de “Deixem que esses imbecis se matem uns aos outros”.

Mas a graça da sociedade é que ela cuida mesmo dos mais imbecis.

A polícia tem que mostrar eficiência e evitar novas lutas, novas mortes. É hora de estar um passo à frente dos imbecis, o que não deve ser difícil.

Considerações finais:
Num vídeo disponível na internet, André Lezo, o torcedor que morreu neste domingo, fala que a Mancha e o Palmeiras eram sua vida. Isso é triste por várias razões:

Primeiro, pelo infeliz trocadilho, pois André não teve vida, mas morte, por conta de Palmeiras e Mancha.

Em segundo lugar, porque há uma certa desesperança em alguém dizer que o futebol é a coisa mais importante de sua vida. É muita falta de expectativa. É sinal de uma vida sem sentido.

Acredito que este crescimento da importância do futebol tem duas causas. A primeira é a queda do nível da educação nacional, que começou em meados dos anos sessenta, durante a ditadura militar. No longo prazo, essa educação falha fez com que valores fossem substituídos, que a cultura ficasse em segundo plano, que a participação na sociedade fosse evitada, etc...

Por outro lado, algumas forças sociais, como partidos políticos, comunidades eclesiais de base, sociedades amigos de bairro e sindicatos perderam seu poder de atração. Sem a ditadura como inimigo óbvio, elas não conseguiram criar novos desejos, novas causas.

As pessoas querem agir, querem fazer parte. E, sem muita concorrência, o futebol acabou canalizando boa parte desde desejo.

O que é uma pena, porque o futebol não tem importância nenhuma.

José Roberto Torero é formado em Letras e Jornalismo pela USP, publicou 24 livros, entre eles O Chalaça (Prêmio Jabuti e Livro do ano em 1995), Pequenos Amores (Prêmio Jabuti 2004) e, mais recentemente, O Evangelho de Barrabás. É colunista de futebol na Folha de S.Paulo desde 1998. Escreveu também para o Jornal da Tarde e para a revista Placar. Dirigiu alguns curtas-metragens e o longa Como fazer um filme de amor. É roteirista de cinema e tevê, onde por oito anos escreveu o Retrato Falado.

http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5531&boletim_id=1158&componente_id=18532

O homem que inventou o Timão - José Roberto Torero

Para o texto de hoje decidi fazer uma entrevista com o primeiro grande jornalista esportivo paulista. Só havia um problema: ele estava morto há 42 anos. Mas para este problema havia uma fácil solução: Zé Cabala, o legítimo facebook das almas boleiras.

Para o texto de hoje decidi fazer uma entrevista com o primeiro grande jornalista esportivo paulista. Só havia um problema: ele estava morto há 42 anos.

Mas para este problema havia uma fácil solução: Zé Cabala.

Para quem nunca ouviu falar dele, explico: trata-se de um nigromante especializado em incorporar espíritos de pessoas que foram ligadas ao esporte. Alguns, sem fé nem respeito, dizem que ele é apenas um embusteiro, mas eu o tenho como o maior dos médiuns ludopédicos, o legítimo facebook das almas boleiras.

Pois bem, quando cheguei em sua sacrossanta morada, um sobradinho no Jardim Lambretta, o mestre dos mestres estava usando seu inseparável turbante enquanto lavava Hebe Camargo (é como ele chama sua velha perua Kombi).

-Bom dia, sábio dos sábios, eu gostaria de usar seus serviços.

-Trouxe o dízimo, digo, o cinquentísimo?

Dei-lhe a nota de cinquenta e fomos para seu templo, uma edícula nos fundos da casa.

-Hoje quero falar com o primeiro grande jornalista esportivo da imprensa paulista - pedi.

Então o maharishi dos maharishis deu quatro voltas para a direita, cinco giros para a esquerda e caiu sobre as almofadas. Depois disse com um sotaque levemente italiano:

-Thomaz Mazzoni, ao seu dispor.

- É uma honra falar com o senhor, um dos pilares do jornalismo esportivo.

-Ora, ora..., todo mundo já me esqueceu...

-Se não me engano, o senhor nasceu na Itália.

-Sim. Em Polignano a Mare, no ano de 1900. Mas lá havia uma crise terrível, e vim ainda bem pequeno para São Paulo. Ficamos na Hospedaria dos Imigrantes, no Brás. Podíamos ter ido para o interior, mas nos ajeitamos por aqui mesmo.

-Quantos anos tinha quando começou no jornalismo?

-Com vinte eu já escrevia no São Paulo Esportivo, um jornal quinzenal. Depois fui redator e diretor do Estampa Esportiva. Em junho de 1928 passei a ser redator nA Gazeta Esportiva e dois anos depois assumi o comando da redação.

-O senhor fez uma revolução no jornalismo esportivo, não é?

-Revolução é exagero. Mas fiz algumas boas inovações. Por exemplo, comecei a nomear os jogadores no jornal do mesmo jeito que eram chamados pela torcida, mesmo que fosse por apelidos ou diminutivos. Também popularizei um pouco a linguagem, e criei alguns termos que ficaram, como os apelidos para os clássicos, como Choque Rei e San-São. Também comecei a chamar o Corinthians de Timão, o Juventus de Moleque Travesso, e o XV de Piracicaba de Nhô Quim.

-Isso mudou o jornalismo esportivo.

-Ficou mais popular, mais próximo do leitor. Mas mais importante foi combater o clubismo dos jornais. Eles criavam uma Choromania.

-Choromania?

-É que a imprensa esportiva é quem faz o ‘choro’, cria rivalidades e às vezes ódios, mesmo porque o ‘choro’ não é mais do que um desabafo da paixão bairrista, e que quanto mais se alimenta, mais cega fica. O ‘choro’ em nosso futebol começou nos áureos tempos dos célebres prélios paulistas x cariocas.

-O senhor pregava uma intervenção do Estado no esporte, não é?

-Com todas as minhas forças. O governo tem que intervir, planejar, cuidar do esporte. Foi assim que França, Espanha e Inglaterra fizeram depois da Primeira Grande Guerra. E eles viraram potências esportivas. Acho que minha maior vitória foi a criação do Conselho Nacional de Desportos (CND), em 1941.

-O senhor também fazia uns almanaques anuais, não é?

-Sim, de 1938 a 51 eu publiquei o Almanaque Sportivo Olympicus, uma "coleta" de tudo o que acontecia nos esportes em São Paulo e no Rio de Janeiro. Hoje eles custam uma nota nos sebos.

-E livros?

-Foram mais de vinte. E um deles, lançado em 1950, acho que é muito importante: A história do Futebol Brasileiro. Todos falam no livro do Mário Filho, O negro no futebol brasileiro, de 1947, mas o meu é tão importante quanto.

-O senhor e o Mário Filho tinham ideias muito diferentes, não é?

-Muito. Ele falava mais do indivíduo, eu, do grupo. Ele gostava mais de dribles e lances, eu falava mais de teorias e técnicas. Para mim, o futebol era uma questão de ciência. E também de política. Eu pensava muito na questão da organização e da administração. Queria fortalecer as associações e as ligas, criar um futebol oficializado e, antes de tudo, profissional.

- Outro livro seu que é muito comentado é O esporte a serviço da pátria.

-Neste eu dizia que a prática esportiva era um meio de engrandecer o Brasil, ajudando na formação do homem nacional e na construção da nacionalidade. Acho que o esporte é algo mais sério do que se tem julgado até agora, erradamente, entre nós. Especialmente de parte dos homens públicos.

-O senhor também achava que esporte era uma questão de educação, não é?

-Mas isto não é óbvio? Eu até mandei uma carta ao ministro Gustavo Capanema, pedindo a criação de uma cadeira sobre “História esportiva” na Escola de Educação Física e Desportos. O crescimento da nossa “cultura esportiva” fatalmente levará ao progresso do esporte.

-No final das contas, o senhor acha que venceu, que conseguiu transformar o esporte?

-Eu, não. Algumas de minhas ideias, sim.

José Roberto Torero é formado em Letras e Jornalismo pela USP, publicou 24 livros, entre eles O Chalaça (Prêmio Jabuti e Livro do ano em 1995), Pequenos Amores (Prêmio Jabuti 2004) e, mais recentemente, O Evangelho de Barrabás. É colunista de futebol na Folha de S.Paulo desde 1998. Escreveu também para o Jornal da Tarde e para a revista Placar. Dirigiu alguns curtas-metragens e o longa Como fazer um filme de amor. É roteirista de cinema e tevê, onde por oito anos escreveu o Retrato Falado.

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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Perdemos o Brasileiro - José Roberto Torero

Perdemos o Brasileiro - José Roberto Torero

Não vejo muita graça nesses necrológios poéticos que se espalham pela internet. Em vez disso, farei algo mais útil e interessante: vou transcrever algumas das últimas palavras de Sócrates ditas na última quarta-feira, quando o vi falar no projeto Memória do Esporte, que tenta resgatar a história de nossos atletas olímpicos.


O Corinthians ganhou o Brasileiro e perdeu o Brasileiro.

O clube conquistou um disputadíssimo campeonato. Mesmo sem ter um time brilhante, entregou-se em cada jogo, suou mais que qualquer outra equipe e tornou-se o legítimo campeão brasileiro de 2011.

Mas perdeu Sócrates.

Na verdade, todos nós, corintianos ou não, perdemos Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira.

Ele foi o mais politizado e atuante jogador do país. E foi um craque. O capitão da nossa seleção de sonho de 1982.

Mas paro aqui de falar sobre ele. Não vejo muita graça nesses necrológios poéticos que se espalham pela internet. Em vez disso, farei algo mais útil e interessante: vou transcrever algumas de suas palavras ditas na última quarta-feira, quando o vi falar no projeto Memória do Esporte, que tenta resgatar a história de nossos atletas olímpicos.

Sua conversa, como sempre, foi política. E, de certa forma, foi na contramão do projeto. Mesmo falando para diretores e produtores que preparam documentários sobre heróis olímpicos, ele disse que a vitória não era o mais importante.

“Muito mais importante que a vitória, trata-se de você atingir seu limite. Eu nunca me esqueço da maior vitória que eu vi na vida, quando uma corredora de maratona chegou absolutamente exausta, com câimbras, sem disputar nada, mas fez questão de terminar a prova. Ela estava disputando o direito de chegar ao final da prova que ela se propôs a fazer. Isso é muito mais importante que qualquer vitória. Até porque a vitória não é importante, ela não nos ensina, nos emburrece. Já a derrota nos faz reavaliar quem somos, o que somos, quem pretendemos ser, como crescer enquanto seres humanos”.

Mais do que competição, esporte para Sócrates era educação e saúde.
Educação porque ensina o convívio social. “Em nosso país existem alguns esportes bastante elitizados, mas o futebol não. Sua prática é estimulada independentemente das origens. Eu tive o privilégio de, ainda criança, conviver com a realidade brasileira. Com a fome, o desemprego, raças diferentes, níveis educacionais distintos. E isso me inspirou muito, eu pude viver isso. Muitas vezes fui em casa de amigos e tive o privilégio de dividir com eles um prato de comida – bem diferente do que me foi oferecido a vida toda. E isso te dá uma bagagem, uma responsabilidade muito importante.”

Sócrates também disse que o Ministério dos Esportes é que deveria ser o verdadeiro Ministério da Saúde, já que o Ministério da Saúde é, na verdade, o da Doença. Depois de afirmar que nunca foi um atleta, ele falou que a prática esportiva trazia óbvios ganhos para o bem-estar físico desde que não se buscasse um altíssimo rendimento. Aí já não seria saudável. E até brincou dizendo nunca ter conhecido um atleta de ponta que não sentisse dores todas as manhãs.

Por fim, falou ainda da relação entre o esporte e a política, mostrando que o esporte, ao invés de alienar, pode informar. Ele contou que viu o pai se desfazer de livros que poderiam ser interpretados como agressivos à ditadura, que lembra de ter ouvido a notícia da morte de Martin Luther King aos 14 anos e, que, nesse mesmo ano, acompanhou a movimentação das ruas em Paris. Mas só entendeu mesmo que o mundo estava em ebulição quando viu os Panteras Negras na Olimpíada do México.

Aliás, o gesto que ele fazia depois de um gol lembra muito o dos Panteras Negras. E ontem foi uma bela homenagem quando todos os torcedores e os jogadores corintianos imitaram o punho erguido de Sócrates.

Tomara que torcedores e jogadores imitem Sócrates em outros gestos.
Precisamos de mais Brasileiros como ele.

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Os emergentes: quatro caminhos e um atalho - José Roberto Torero

Os emergentes: quatro caminhos e um atalho - José Roberto Torero

No futebol também temos emergentes. E eles formam o TOSC. No caso, os clubes são Tupi, Oeste, Santa Cruz e Cuiabá. Os quatro conseguiram o acesso para a Série C do Brasileiro. Eles são muito diferentes em algumas coisas e parecidos em uma.


Você certamente já ouviu falar no BRICS, um acrônimo que identifica o grupo formado por cinco países emergentes: Brasil, Rússia Índia, China e África do Sul.

Pois no futebol também temos emergentes. E eles formam o TOSC. No caso, os clubes são Tupi, Oeste, Santa Cruz e Cuiabá.

Os quatro conseguiram o acesso para a Série C do Brasileiro. Eles são muito diferentes em algumas coisas e parecidos em uma.

O Cuiabá é um jovem clube empresa, criado em 2001 pelo ex-jogador Gaúcho. Deu uma parada em 2006 e voltou às atividades em 2009 sob nova direção. Naquele ano ganhou a segunda divisão do campeonato mato-grossense e em 2011 foi campeão da primeira.

O Oeste é de Itápolis e já tem vetustos 91 anos. Em 1997 estava na quinta divisão do futebol paulista. Mas veio subindo e teve em 2011 o melhor momento de sua biografia, com a conquista do Campeonato Paulista do Interior e o acesso à Série C.

O Santa Cruz sofreu a mais rápida queda da história do futebol brasileiro. Foram três rebaixamentos seguidos. Em 2006 jogou a Série A, disputou a B em 2007, já estava na C em 2008 e foi parar na D em 2009. Mas este ano, dirigido pelo competente técnico Zé Teodoro e empurrado por sua torcida (por sua vez estimulada com o programa “todos com a nota”, que troca notas fiscais por ingressos), ganhou o Pernambucano e foi vice-campeão da Série D.

Mas é o Tupi é quem puxa a fila do TOSC. Neste domingo, o clube mineiro conquistou o Campeonato Brasileiro da Série D ao vencer o Santa Cruz em pleno Arruda, fazendo lágrimas rolarem dos 120 mil olhos presentes.

O time é uma mescla de jovens promissores e atletas experientes que ainda têm o que mostrar. E três destes veteranos são os ídolos do time:

- Luciano Ratinho, 32 anos, surgiu no Botafogo de Ribeirão Preto e depois virou um cigano, passando por Corinthians, Grêmio, Paysandu, Sertãozinho, Monte Azul, Coreia do Sul, China e Portugal até chegar ao Tupi.

- O veterano Ademílson, centroavante de 37 anos, teve sua melhor fase no Botafogo do Rio, em 2002. Não é muito habilidoso, mas é um touro. Seu passaporte tem carimbos do México e da Bélgica. Chegou ao Tupi em 2007 e tem sido tão importante para o clube que ganhou o título de cidadão honorário de Juiz de Fora.

- E o xodó da torcida é Allan Taxista, um jogador que começou a jogar profissionalmente só em 2006, aos 27 anos. Antes, como diz o nome, dirigia um táxi na cidade. Mas se destacava tanto nos jogos de várzea que acabou chamado para o time profissional.

Para dirigir a equipe, o escolhido foi Ricardo Drubscky, professor de Educação Física e autor do livro “O Universo Tático do Futebol – Escola Brasileira”. Em sua carreira trabalhou principalmente com divisões de base, como no Cruzeiro-MG e no Atlético-PR, o que deve ter ajudado com os novatos do time de Juiz de Fora.

Outro fator que contribuiu para o sucesso do Tupi foram os patrocinadores. Há alguns mais portentosos, como o banco BMG (que patrocina vários times da primeira divisão nacional) e a MRS, uma grande operadora ferroviária de cargas, além de outros menores, como um supermercado da cidade, uma academia de ginástica e uma concessionária. E, é claro, há uma ajuda da prefeitura, o que sempre me parece errado, pois prefeituras têm que gastar é com necessidades básicas, como educação e saúde.

De qualquer forma, o dinheiro do patrocínio chegou um pouco tarde. Em 2009 o clube vendeu praticamente a metade da área de sua sede social a fim de sanar dívidas. E em fevereiro deste ano teve a água cortada por falta de pagamento.

Pois bem, eu vos pergunto: O que há em comum entre os quatro clubes do TOSC?

E eu vos respondo: Uma melhora de gerenciamento.

Eles partem de princípios diferentes. O Cuiabá é um time-empresa, enquanto o Tupi é apoiado pela prefeitura. O Oeste tem um investidor como dirigente, enquanto o Santa Cruz passou a ser comandado por políticos (o atual presidente é vereador e o anterior é o atual Ministro da Integração Nacional).

Mas os quatro sofreram uma mudança de gestão que os fez dar um salto de qualidade.

Duas ou três boas gestões melhoram um bocado a vida de um clube.

Talvez seja o mesmo que ocorreu no Brasil. Na última década e meia tivemos um pouco mais de competência e subimos de divisão.

Mas é bom lembrar que ainda estamos na Série C.



José Roberto Torero é formado em Letras e Jornalismo pela USP, publicou 24 livros, entre eles O Chalaça (Prêmio Jabuti e Livro do ano em 1995), Pequenos Amores (Prêmio Jabuti 2004) e, mais recentemente, O Evangelho de Barrabás. É colunista de futebol na Folha de S.Paulo desde 1998. Escreveu também para o Jornal da Tarde e para a revista Placar. Dirigiu alguns curtas-metragens e o longa Como fazer um filme de amor. É roteirista de cinema e tevê, onde por oito anos escreveu o Retrato Falado.

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Esportes: entre mercadoria e política pública - Paulo Kliass

Esportes: entre mercadoria e política pública - Paulo Kliass

A pergunta que não cala após o término do Pan: como é possível que Cuba, uma pequena ilha com pouco mais de 11 milhões de habitantes, sofrendo todo tipo de dificuldade econômica derivada do embargo imposto pelos norte-americanos, consiga um desempenho geral mais elevado do que o Brasil na competição?



Os últimos dias têm sido pródigos na divulgação de informações e fatos relevantes a respeito do esporte em nossas terras. E vejam que não se trata aqui dos resultados do campeonato brasileiro de futebol ou da performance de times brasileiros nos campeonatos latino-americanos.

Não, não! Dessa vez a semana veio carregada com o anúncio da troca de comando no Ministério do Esporte (ME) e com o balanço do desempenho das principais delegações nacionais presentes nos Jogos Pan-Americanos no México. E esses dois fatos relevantes simbolizam bem a situação a que o esporte tem sido relegado em nosso País.

A demissão do ministro Orlando Silva teve por base um conjunto de denúncias envolvendo um programa do ME, o chamado Segundo Tempo. Trata-se de uma tentativa de desenvolver atividades esportivas pelo Brasil afora, dirigida aos jovens, em várias modalidades, mas por meio de convênios efetivados entre o ministério e as famosas Organizações Não Governamentais (ONGs).

O encerramento dos Jogos do Pan em Guadalajara confirmou, mais uma vez, a posição do Brasil em terceiro lugar na competição. Como o critério classificatório é o número de medalhas de ouro obtidas ao longo do certame, ficamos de novo atrás dos EUA e de Cuba. Não apenas tivemos menos medalhas de ouro que os cubanos (48 contra 58), como vimos reduzir o número das mesmas em relação ao Pan de 2007, quando havíamos alcançado 54 delas.

Ora, a pergunta que não calou durante vários dias, assim como vem ocorrendo há várias décadas, após cada evento esportivo dessa natureza: como é possível que Cuba, uma pequena ilha com pouco mais de 11 milhões de habitantes, sofrendo todo tipo de dificuldade econômica derivada do embargo imposto pelos norte-americanos, consiga um desempenho geral mais elevado do que o Brasil na competição? Afinal desde 1971 que Cuba nunca mais perdeu a segunda colocação, sempre atrás dos norte-americanos. É claro que a resposta a tal indagação envolve um conjunto amplo de fatores, de natureza econômica, política, social, geo-política, cultural e esportiva.

Mas, sem sombra de dúvida, as razões têm muito a ver com as posições de Cuba em termos de outras avaliações de suas políticas nacionais. Por exemplo, com certeza devem estar relacionadas ao fato de ela apresentar um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais elevado que o Brasil (51ª posição contra 84ª posição), ao fato de ela apresentar uma taxa de analfabetismo bem mais reduzida do que a nossa (0,2% contra 9,6% no total da população de 15 anos ou mais) e ao fato de registrar um índice de mortalidade infantil também bem mais reduzido do que o brasileiro (4,9 por mil contra 19.8 por mil nascidos vivos). Ou seja, um conjunto de políticas públicas para saúde e educação que proporciona resultados positivos, ao que tudo indica, em termos de melhoria da qualidade de vida de sua população.

No caso do esporte, também não é muito diferente. No Brasil, permanece subjacente no debate a contradição entre: i) encarar o esporte como apenas uma mercadoria a mais no amplo rol das prateleiras oferecidas pelo capitalismo; ou ii) assumir a importância estratégica do esporte como elemento integrante do conjunto de políticas públicas a serem desenvolvidas pelo Estado. O mais grave é que, ainda sob o efeito paralisante dos anos de chumbo do neoliberalismo, pouco se avançou na superação desse dilema ao longo dos últimos anos.

A realidade se incumbiu de demonstrar que apenas o fato ter criado a estrutura ministerial exclusiva em 2003 não bastou. Foi, sem dúvida alguma, um passo importante dado pelo ex Presidente Lula no início de seu primeiro mandato. Até então, o esporte sempre estivera em pastas com outras áreas, como a educação e, mais recentemente, o turismo. Porém, ficamos na triste constatação de que um ministério específico é uma condição necessária, mas não suficiente. A face da mercantilização da atividade esportiva não apenas continuou inalterada, como acabou sendo reforçada pela forma como os diferentes ocupantes do ME trataram do tema.

O futebol é o paradigma mais evidente desse processo de transformação da atividade esportiva em mercadoria. Apesar de não ser o único caso, sua importância simbólica no imaginário popular e nacional faz com que a mercantilização seja amplamente difundida e até mesmo aceita por parcelas significativas da sociedade. Mas poderíamos citar também os casos do automobilismo, do basquete, do voleibol, do tênis e tantos outros. À medida que ganha importância e popularidade, o evento esportivo e o mundo dos esportes ganham um espaço especial e muito valorizado nos grandes meios de comunicação. A ponto destes últimos fazerem valer sua vontade junto ao próprio poder público. Um dos exemplos mais expressivos disso é a exploração privada da imagem de um dos elementos simbólicos da Nação – a seleção brasileira de futebol. Aquilo que deveria ser monopólio da União é fonte de negociação e vultosos lucros entre as empresas privadas.

Por outro lado, assuntos como salários dos profissionais, montantes dos valores negociados entre clubes, cifras constantes nos contratos dos patrocinadores, renda derivada da venda de ingressos e outros passam a ser tratados dentro de uma suposta “normalidade” de relações negociais. São números carregados de muitos zeros, milionários. Os clubes passam a ser operados como “empresas” e os objetivos concentram-se na esfera do “businness” puro e simples. E aqui não se fala apenas de uma gestão mais eficiente (o que é sempre bem vindo), mas da busca do lucro e da acumulação a todo momento e a qualquer custo. O espírito esportivo? Bem, esse “pequeno detalhe” termina por passar muito longe de tudo isso.

A constituição do esporte como agenda prioritária no conjunto de políticas públicas do Estado deveria justamente criar um sistema esportivo que operasse como contraponto a esse arsenal empresarial já existente e que não precisa nem merece tanto recurso público assim. Isso significa buscar a formação esportiva lá onde atuou a maioria dos países que obtiveram sucesso: a população jovem nas escolas. Ou seja, incorporar a atividade esportiva, de forma efetiva, como elemento indissociável da formação escolar. Assim, aliás, como as atividades artísticas em geral e a música, em particular. Desnecessário registrar que, apesar da prioridade aqui proposta, isso não significa que o ME não deva manter outros programas, como a terceira idade, portadores de necessidade especial, e outros.

Assim, é necessário romper com a aparente contradição entre a visão do esporte de alto rendimento e a visão do esporte como política social e como instrumento de universalização e de cidadania. Sim, pois à medida que a política pública se viabiliza por meio da universalização do acesso à formação e à atividade esportivas, naturalmente estão criadas as condições para o surgimento dos grandes talentos. Dessa forma, esses jovens diferenciados – os futuros “craques” - poderão ser encaminhados para estruturas de aperfeiçoamento desse potencial esportivo de alto nível. E o mais importante é que o foco de todo esse processo não é simplesmente a obtenção de títulos e/ou medalhas. Isso virá como conseqüência de um processo de ganhos de qualidade de vida, de satisfação pessoal e coletiva, de melhoria comprovada no rendimento escolar, de elevação nos padrões de saúde pública, dentre tantos outros ganhos de natureza social.

E então, a verdade é que estamos ainda muito longe de tudo isso. Como a prioridade do ME desde 2003 não foi a constituição de tal agenda de política pública, o esporte continuou distante da posição de elemento importante na pauta do governo. Os próprios dados do Orçamento da União contribuem para analisarmos tal fato.

Entre 2006 e 2007, por exemplo, de acordo com o Projeto de Lei Orçamentária (PLO) (nota 1) encaminhado pelo Executivo para apreciação pelo Congresso, mais de 60% dos recursos destinavam-se às obras para a realização dos Jogos do Pan Americano no Rio de Janeiro. Mais à frente, em 2010, o PLO encaminhado pelo Executivo para apreciação pelo Congresso totalizava um valor aproximado de R$ 400 milhões para o ME, sendo que a metade desse valor era destinado ao Programa Segundo Tempo – objeto do polêmico repasse para as ONGs.

Se mudarmos o enfoque da prioridade definida pelo Orçamento, poderemos verificar a importância dedicada pelo governo ao esporte definido como sendo de “alto rendimento”. No PLO de 2011, esses valores representavam quase 60% dos R$ 1,2 bilhão da proposta total do ME. Já na proposta de PLO para 2012, o item do programa sintomaticamente chamado “Esporte de Alto Rendimento – Brasil Campeão” apresenta um percentual superior a 80% do total de despesas de R$ 1,6 bi.

Outro aspecto revelador da forma como está sendo estabelecida a política do ME pode ser inferido a partir das informações relativas ao aumento da dotação orçamentária inicial encaminhada pelo Executivo. Em função da tramitação do PLO no Congresso Nacional, a Lei Orçamentária final pode aumentar os valores, em particular por meio das emendas parlamentares no interior da Comissão Mista do Orçamento (CMO). Em 2011, por exemplo, a dotação inicial quase dobrou de valor, saindo de R$ 1,3 para R$ 2,5 bi. Porém, o detalhe é que mais de 80% desse aumento deveu-se a emendas para construção de quadras esportivas e equipamentos similares espalhados pelos municípios do Brasil afora, ao que tudo indica sem qualquer critério de política de esporte integrada e coerente A proposta inicial do Executivo para o programa “Esporte e Lazer na Cidade” era de R$ 80 milhões e o valor foi multiplicado por 14, saltando para R$ 1,1 bi depois da negociação das emendas.

Não basta construir quadras sem um suporte pedagógico, sem estrutura de professores com competência na área esportiva e sem uma integração com a política educacional nacional, além de seus óbvios rebatimentos no plano municipal. Além disso, é preciso superar o complexo limitador de “terra do futebol” e abrir as alternativas para o desenvolvimento dos jovens de todo o País em outras atividades esportivas nas quais surgirão competências. É o mesmo raciocínio válido para a educação musical: não é pelo fato de “todo brasileiro nascer com ginga e samba no pé”, que não seja essencial difundir a formação da música como linguagem e o ensino de música erudita desde os primeiros anos da formação escolar básica.

Para a implementação esse projeto mais abrangente para o esporte, é fundamental romper com a lógica mercantil que se instalou em nosso meio. Esporte não pode ser encarado como mercadoria e esse tipo de enfoque não deve receber maiores privilégios pela ação do Estado. No Brasil, em especial, a atividade esportiva deve ser encarada como elemento de cidadania e inclusão social. Ou seja, aspecto indissociável de política pública de caráter universal e democrático.


Nota

(1) Todas informações são públicas e estão disponíveis na página da Câmara dos Deputados:
http://www2.camara.gov.br/atividade-legislativa/orcamentobrasil/orcamentouniao/atividade-legislativa/orcamentobrasil/orcamentouniao/loa/loa2012



Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

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Diga-me com quem "não" andas e te direi quem és - José Roberto Torero

Diga-me com quem "não" andas e te direi quem és - José Roberto Torero

Do mesmo jeito que nossos amigos nos definem, nossos inimigos também explicam quem somos. Não existiria Tom sem Jerry, Coyote sem Bip-Bip, Coringa sem Batman, Lex Luthor sem Super-Homem, MDB sem Arena. E, nesta reta final do Brasileiro, definem até se seremos ou não campeões, se seremos ou não rebaixados.

O célebre ditado bíblico bem poderia ser como está aqui no título, com este “não” a mais.

Do mesmo jeito que nossos amigos nos definem, nossos inimigos também explicam quem somos. Não existiria Tom sem Jerry, Coyote sem Bip-Bip, Coringa sem Batman, Lex Luthor sem Super-Homem, MDB sem Arena.
Os antípodas ajudam a definir nossa identidade. E, nesta reta final do Brasileiro, definem até se seremos ou não campeões, se seremos ou não rebaixados.

Quando começaram os pontos corridos tivemos alguns finais de campeonatos com jogos modorrentos e marmelosos. A imprensa chiou e a CBF finalmente colocou os clássicos estaduais e regionais nas últimas rodadas. Deu certo. Tanto que no próximo domingo teremos dois clássicos emocionantes, Corinthians x Palmeiras e Vasco x Flamengo, jogos que definirão o Campeonato Brasileiro.

Serão partidas memoráveis para os vencedores e, infelizmente, inesquecíveis para os perdedores.

Para corintianos e vascaínos será a chance de uma alegria dupla: ser campeão e ainda vencer seu arqui-inimigo. Uma festa completa. A glória conquistada contra o grande adversário no momento final, assim como num filme da Sessão da Tarde.

Para palmeirenses e flamenguistas será a oportunidade de ganhar um campeonato de consolação, o campeonato de um só jogo. Os palmeirenses chegam a falar em “salvar o ano” com uma vitória sobre o Corinthians.

As declarações dos palmeirenses são explícitas. Valdívia disse que “É uma questão de honra”, Deola falou “Temos que vencer de qualquer jeito”, e o presidente palmeirense prometeu bicho em dobro.

Por outro lado, Tite, o técnico do Corinthians, diminui a temperatura do jogo dizendo: "É muito pobre o cara se motivar para ferrar o adversário".
Pode ser pobre, mas é humano. Trazer a tristeza ao inimigo também é uma forma de ser feliz.

E ainda outros duelistas. No Sul, por exemplo, o Grêmio tentará impedir o Inter de se classificar para a Libertadores. Por sua vez, o Colorado lutará para que o Grêmio não entre na Sul-Americana.

Coritiba e Atlético-PR farão um clássico de esperanças. O Atlético tem que vencer para escapar do rebaixamento. O Coritiba precisa da vitória para ir à Libertadores. Um precisa ganhar para chegar ao céu, o outro, para escapar do inferno. E os dois lutarão pra impedir o sonho alheio.

Em Minas Gerais não é muito diferente. O Galo, mesmo já não tendo nenhum interesse no Brasileiro, vai se esforçar para vencer o ameaçado Cruzeiro, time que se gaba de nunca ter caído para a Série B.

Mesmo o já rebaixado Avaí vai se esfalfar para impedir que o Figueirense chegue à Libertadores. Seria uma vitória final que manteria a honra do clube. Uma vitória do sadismo.

O curioso é que muitos rivais talvez saíssem ganhando mais se se unissem. Mas vá falar a um torcedor do Guarani que seu time deveria se juntar à Ponte Preta para que Campinas tenha um time realmente forte. Vá falar a um comercialino que sua equipe e o Botafogo deveriam se unir e fazer o Ribeirão Preto Futebol Clube. Vá falar a um petista que seu partido é mais parecido com o PSDB do que ele pensa, e que os dois poderiam formar uma única e vitoriosa agremiação.

Não tem jeito. Há oposições que definem posições, inimigos que explicam quem somos. Mesmo que seja pior para todos.

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terça-feira, 22 de novembro de 2011

Os emergentes: quatro caminhos e um atalho - José Roberto Torero

No futebol também temos emergentes. E eles formam o TOSC. No caso, os clubes são Tupi, Oeste, Santa Cruz e Cuiabá. Os quatro conseguiram o acesso para a Série C do Brasileiro. Eles são muito diferentes em algumas coisas e parecidos em uma.


Você certamente já ouviu falar no BRICS, um acrônimo que identifica o grupo formado por cinco países emergentes: Brasil, Rússia Índia, China e África do Sul.

Pois no futebol também temos emergentes. E eles formam o TOSC. No caso, os clubes são Tupi, Oeste, Santa Cruz e Cuiabá.

Os quatro conseguiram o acesso para a Série C do Brasileiro. Eles são muito diferentes em algumas coisas e parecidos em uma.

O Cuiabá é um jovem clube empresa, criado em 2001 pelo ex-jogador Gaúcho. Deu uma parada em 2006 e voltou às atividades em 2009 sob nova direção. Naquele ano ganhou a segunda divisão do campeonato mato-grossense e em 2011 foi campeão da primeira.

O Oeste é de Itápolis e já tem vetustos 91 anos. Em 1997 estava na quinta divisão do futebol paulista. Mas veio subindo e teve em 2011 o melhor momento de sua biografia, com a conquista do Campeonato Paulista do Interior e o acesso à Série C.

O Santa Cruz sofreu a mais rápida queda da história do futebol brasileiro. Foram três rebaixamentos seguidos. Em 2006 jogou a Série A, disputou a B em 2007, já estava na C em 2008 e foi parar na D em 2009. Mas este ano, dirigido pelo competente técnico Zé Teodoro e empurrado por sua torcida (por sua vez estimulada com o programa “todos com a nota”, que troca notas fiscais por ingressos), ganhou o Pernambucano e foi vice-campeão da Série D.

Mas é o Tupi é quem puxa a fila do TOSC. Neste domingo, o clube mineiro conquistou o Campeonato Brasileiro da Série D ao vencer o Santa Cruz em pleno Arruda, fazendo lágrimas rolarem dos 120 mil olhos presentes.

O time é uma mescla de jovens promissores e atletas experientes que ainda têm o que mostrar. E três destes veteranos são os ídolos do time:

- Luciano Ratinho, 32 anos, surgiu no Botafogo de Ribeirão Preto e depois virou um cigano, passando por Corinthians, Grêmio, Paysandu, Sertãozinho, Monte Azul, Coreia do Sul, China e Portugal até chegar ao Tupi.

- O veterano Ademílson, centroavante de 37 anos, teve sua melhor fase no Botafogo do Rio, em 2002. Não é muito habilidoso, mas é um touro. Seu passaporte tem carimbos do México e da Bélgica. Chegou ao Tupi em 2007 e tem sido tão importante para o clube que ganhou o título de cidadão honorário de Juiz de Fora.

- E o xodó da torcida é Allan Taxista, um jogador que começou a jogar profissionalmente só em 2006, aos 27 anos. Antes, como diz o nome, dirigia um táxi na cidade. Mas se destacava tanto nos jogos de várzea que acabou chamado para o time profissional.

Para dirigir a equipe, o escolhido foi Ricardo Drubscky, professor de Educação Física e autor do livro “O Universo Tático do Futebol – Escola Brasileira”. Em sua carreira trabalhou principalmente com divisões de base, como no Cruzeiro-MG e no Atlético-PR, o que deve ter ajudado com os novatos do time de Juiz de Fora.

Outro fator que contribuiu para o sucesso do Tupi foram os patrocinadores. Há alguns mais portentosos, como o banco BMG (que patrocina vários times da primeira divisão nacional) e a MRS, uma grande operadora ferroviária de cargas, além de outros menores, como um supermercado da cidade, uma academia de ginástica e uma concessionária. E, é claro, há uma ajuda da prefeitura, o que sempre me parece errado, pois prefeituras têm que gastar é com necessidades básicas, como educação e saúde.

De qualquer forma, o dinheiro do patrocínio chegou um pouco tarde. Em 2009 o clube vendeu praticamente a metade da área de sua sede social a fim de sanar dívidas. E em fevereiro deste ano teve a água cortada por falta de pagamento.

Pois bem, eu vos pergunto: O que há em comum entre os quatro clubes do TOSC?

E eu vos respondo: Uma melhora de gerenciamento.

Eles partem de princípios diferentes. O Cuiabá é um time-empresa, enquanto o Tupi é apoiado pela prefeitura. O Oeste tem um investidor como dirigente, enquanto o Santa Cruz passou a ser comandado por políticos (o atual presidente é vereador e o anterior é o atual Ministro da Integração Nacional).

Mas os quatro sofreram uma mudança de gestão que os fez dar um salto de qualidade.

Duas ou três boas gestões melhoram um bocado a vida de um clube.

Talvez seja o mesmo que ocorreu no Brasil. Na última década e meia tivemos um pouco mais de competência e subimos de divisão.

Mas é bom lembrar que ainda estamos na Série C.

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